Binho lança o ProAcre em Miraflores
Especial Identidade Acreana

Binho Marques revisita o Acre que tentou organizar para fazer o Estado chegar às pessoas

Em entrevista, o ex-governador volta ao período em que tentou organizar educação, saúde, floresta, infraestrutura e cidadania como partes de um mesmo projeto de Estado.

Binho lança o ProAcre em Miraflores. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

O cidadão não pode ter que correr atrás do Estado. É o Estado que tem que se organizar para atender o cidadão.

Binho Marques voltou a olhar para o próprio governo, em 2026, não como quem busca uma vitrine de obras, mas como quem remexe uma casa antiga para entender onde a estrutura resistiu, onde a madeira apodreceu e em que ponto o Acre perdeu o rumo de uma travessia que, entre 2007 e 2010, tentou organizar o Estado para que educação, saúde, renda, território, floresta e cidadania deixassem de funcionar como promessas separadas. Ex-governador, educador formado na escola pública e na convivência com seringueiros, Chico Mendes e Marina Silva, Binho revisita aquele período com uma frase que resume sua obsessão: “O cidadão não pode ter que correr atrás do Estado. É o Estado que tem que se organizar para atender o cidadão”.

Origem

Sua memória começa antes do Palácio Rio Branco. Começa nos rios, na figura do avô libanês que chegou ao Acre em 1906 como regatão, navegando entre colocações e barrancos, e no pai paraibano que veio nos anos 1940 trabalhar na criação da Estação Experimental do antigo Território. “Eu cresci vendo esse encontro de mundos”, diz Binho. A frase ajuda a explicar uma formação política que não nasceu no gabinete, mas no cruzamento entre a educação popular, a economia dos seringais, a luta pela floresta em pé e a vida miúda de quem sempre precisou do Estado, mas quase nunca o encontrava no fim do ramal. “Eu entrei na vida pública pela educação, achando que ali estava a chave de tudo. E continuo achando. Mas a vida foi me ensinando que não existe solução isolada.”

Foi nesse varadouro que o educador virou gestor de sistemas. Historiador, integrante da geração que participou da fundação do Centro de Trabalhadores da Amazônia, em 1983, Binho esteve ligado às experiências de educação nos seringais e ao campo socioambiental que apoiou a organização dos trabalhadores da floresta. A passagem pelo Projeto Seringueiro, criado por Chico Mendes para alfabetizar filhos de seringueiros, coloca sua trajetória dentro de uma linhagem acreana em que ensinar a ler também significava ensinar a permanecer no território, defender a colocação, compreender o patrão, o barracão, o preço da borracha, a conta no caderno e o direito de existir sem derrubar a mata. Ser cidadão na floresta.

Eu entrei na vida pública pela educação, achando que ali estava a chave de tudo. E continuo achando.

“Depois tive a sorte de conviver com o Chico Mendes e com a Marina. Eles foram professores no sentido mais profundo. Me ajudaram a sair de uma visão mais dura, mais radical, e entender melhor as pessoas, a complexidade da vida real. Foi ali que eu entendi que não dá pra separar educação de saúde, de renda, de território. Ou a gente pensa o conjunto, ou a gente não resolve”, afirma. Essa chave, no fundo, é a chave do governo que ele ainda tenta explicar: um governo menos interessado na fotografia do ato inaugural e mais preso à engenharia invisível da política pública. “Talvez tenha sido um governo mais preocupado com a essência do que com a aparência.”

Talvez tenha sido um governo mais preocupado com a essência do que com a aparência.

Quando assumiu o governo, em 2007, Binho herdou o ciclo aberto por Jorge Viana em 1999, quando a Frente Popular reconstruiu a máquina estadual, recuperou autoestima politicosocial e costurou uma narrativa de desenvolvimento sustentável para um Acre que saía de décadas de isolamento, improviso administrativo e abandono dos interiores. Binho não nega essa filiação. Pelo contrário. “Era consolidar um projeto de futuro, um caminho arduamente aberto pelo Jorge Viana e dar um passo adiante. A gente vinha de um processo muito importante de reconstrução do Estado. Eu peguei um Acre muito melhor, mas ainda precisava organizar e dar musculatura técnica ao governo para reduzir ainda mais as desigualdades.”

A diferença estava no temperamento. Jorge, na leitura de Binho, era mais intuitivo, comunicativo e ousado. Ele, mais silencioso, interno, metódico. “Eu sou mais introspectivo, planejo muito antes de fazer. Tenho um estilo mais voltado para a organização interna e democratização dos serviços públicos.” Essa autodefinição ajuda a compreender porque parte de seu legado parece menos luminoso na memória pública do que nas engrenagens que ficaram. Binho tentou governar como quem arruma uma repartição por dentro: fila, fluxo, dado, protocolo, acesso, padrão, continuidade. “Eu sempre tive uma preocupação grande com a organização dos sistemas públicos de serviços à comunidade. Fazer com que as coisas funcionassem de forma organizada, contínua e justa, sem bilhete de político para furar filas, mas a garantia do direito de ser atendido no tempo certo.”

Educação

A educação foi a espinha dorsal dessa visão. Antes de ser governador, Binho comandou a Secretaria Municipal de Educação de Rio Branco, entre 1993 e 1996, passou pela Secretaria Estadual de Educação entre 1999 e 2002, foi vice-governador e acumulou áreas de Educação, Desenvolvimento Humano e Inclusão Social entre 2003 e 2006. A política educacional acreana se estruturou com diagnóstico, cooperação entre Estado e municípios, formação de professores, melhoria de infraestrutura, foco na aprendizagem e atendimento às comunidades rurais e florestais.

Educação — IDEB 2009

  • 5º ano do ensino fundamental: 4,5 — meta prevista para 2013 superada em 2009
  • Anos finais do ensino fundamental: 4,1
  • Ensino médio: 3,5 — entre os dez melhores resultados da rede pública no país
  • Programas estruturantes: Asas da Florestania e Asinhas da Florestania (educação rural e ribeirinha)

Binho, no entanto, recusa a assinatura solitária. “A educação sempre esteve no centro da minha vida. Minha mãe e minhas tias foram grandes professoras de escolas públicas. Mas nunca vi a educação de forma isolada. Quando o Acre melhora indicadores, isso não é obra de um governo só. É um processo longo, coletivo. Educação é sempre parte de uma trajetória.” Aqui vemos o peso de quem sabe que escola, no Acre profundo, não é apenas sala, quadro e carteira. É transporte em rio cheio, professor que enfrenta ramal, tabocal afiado, merenda que precisa vencer distância, criança ribeirinha que aprende no calendário da cheia e da vazante, família extrativista que precisa enxergar sentido na permanência do filho estudando sem abandonar a floresta. A vida não é só asfalto e concreto.

Binho inaugura nova Escola Maria Lima de Souza em Cruzeiro do Sul
Binho inaugura nova Escola Maria Lima de Souza em Cruzeiro do Sul. Unidade foi completamente reformada, passou por ampliação e recebeu novos ambientes e equipamentos. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

ProAcre

Programas como Asas da Florestania e Asinhas da Florestania nasceram dessa tentativa de fazer a política pública caber no mapa real, não no desenho fácil de gabinete. A lógica se conectava ao ProAcre, o Programa de Inclusão Social e Desenvolvimento Econômico Sustentável, que trabalhou com Zonas de Atendimento Prioritário, comunidades-polo, saúde, educação, produção, segurança alimentar e fortalecimento institucional. Em Miraflores, no município de Feijó, por exemplo, o pacote anunciado passou de R$ 12 milhões — valor que hoje é gasto com um jatinho, pelo Estado acreano. O PSF Móvel levava equipes com médico, enfermeiro, auxiliares e agentes comunitários por rios, estradas e ramais, uma resposta concreta ao velho drama acreano de viver longe demais para ser lembrado.

ProAcre é o Estado presente nas comunidades mais distantes
ProAcre é o Estado presente nas comunidades mais distantes. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

ProAcre — Inclusão Social e Desenvolvimento Sustentável

  • Zonas de Atendimento Prioritário (ZAPs) com comunidades-polo
  • PSF Móvel: equipes com médico, enfermeiro, auxiliares e agentes comunitários
  • Atendimento: qualquer ponto do mapa do Acre pelo menos uma vez por mês
  • Eixos: saúde, educação, produção, segurança alimentar e fortalecimento institucional
  • Miraflores (Feijó): pacote superior a R$ 12 milhões

O mais importante ali foi levar o Estado para onde as pessoas estão. Isso parece óbvio, mas não era.

“O mais importante ali foi levar o Estado para onde as pessoas estão. Isso parece óbvio, mas não era”, diz Binho. Em seguida, ele lança uma comparação que carrega crítica ao presente e saudade de um tempo em que a máquina pública ainda tentava alcançar a última casa do mapa: “Imagine que naquela época havia atendimento médico, por exemplo, em qualquer ponto do mapa do Acre pelo menos uma vez por mês. É algo impensável para um governo como o que temos hoje.” O ProAcre, em sua leitura, não era um programa lateral. Era a tradução administrativa de uma pergunta política decisiva: como fazer a cidadania atravessar rio, lama, distância, fronteira, igarapé, varadouro e ramal?

ProAcre é o Estado presente nas comunidades mais distantes
ProAcre é o Estado presente nas comunidades mais distantes. Atendimento aproxima cidadania de comunidades historicamente isoladas. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

OCA

A resposta mais urbana dessa mesma obsessão foi a OCA, inaugurada em Rio Branco em dezembro de 2010. A Organização em Centros de Atendimento reuniu 26 instituições e mais de 500 serviços, com investimento superior a R$ 25 milhões. A emissão de carteira de identidade, antes arrastada por 30 a 90 dias, poderia sair em 48 horas ou até 24 horas. Para uma população acostumada a perder manhãs inteiras entre balcões, carimbos e portas fechadas, a OCA representou mais do que eficiência: representou respeito.

OCA — Organização em Centros de Atendimento

  • Inauguração: dezembro de 2010, Rio Branco
  • Instituições reunidas: 26
  • Serviços oferecidos: mais de 500
  • Investimento: superior a R$ 25 milhões
  • RG antes: 30 a 90 dias de espera
  • RG depois: 48 horas (até 24 horas em alguns casos)

A OCA é meu xodó. Nasceu de uma ideia muito simples. O cidadão não pode ter que correr atrás do Estado. É o Estado que tem que se organizar para atender o cidadão. Isso tem a ver com eficiência, mas tem muito mais a ver com respeito também.

“A OCA é meu xodó. Nasceu de uma ideia muito simples. O cidadão não pode ter que correr atrás do Estado. É o Estado que tem que se organizar para atender o cidadão. Isso tem a ver com eficiência, mas tem muito mais a ver com respeito também”, afirma Binho.

Essa leitura talvez seja a melhor síntese do “Acre organizado” que Binho perseguiu. O Estado, para ele, não podia funcionar como favor de político, senha de conhecido ou despacho de corredor. “Quando o Estado se organiza dessa forma, ele muda a relação. Fica mais próximo, mais compreensível, menos desgastante.” A ideia era simples e radical para uma cultura política marcada por intermediação pessoal: transformar atendimento em direito. Tirar da mão do padrinho a capacidade de decidir quem seria atendido primeiro. Fazer da fila uma fila justa. Fazer do serviço uma rotina. Fazer da dignidade um procedimento.

Binho entrega a OCA: espaço feito para facilitar a vida das pessoas
Fachada da OCA com público na inauguração. Crédito: Foto: Gleilson Miranda/Secom. Licença: CC BY 2.0.
Binho entrega a OCA: espaço feito para facilitar a vida das pessoas
Interior da OCA: atendimento integrado reúne 26 instituições em um só espaço. Crédito: Foto: Gleilson Miranda/Secom. Licença: CC BY 2.0.

BR-364

Na infraestrutura, a BR-364 ocupou o centro da travessia física. Em 2010, o governo acompanhava obras entre Sena Madureira e Feijó, com 16 lotes, 224 quilômetros em recuperação, 90 quilômetros de restauração e asfaltamento, acessos a pontes e 2,6 mil metros de pontes. Os rios Purus, Envira, Diabinho, Tarauacá e Juruá entravam no mapa de uma integração que dependia de recursos federais, PAC, decisões acumuladas e continuidade entre governos. Binho não pode ser tratado como dono isolado dessa estrada de décadas, mas seu mandato deu impulso a uma etapa decisiva da ligação entre Rio Branco, o restante do Brasil e Cruzeiro do Sul.

BR-364 — Obras no trecho Sena Madureira–Feijó (2010)

  • Lotes: 16
  • Recuperação: 224 km
  • Restauração e asfaltamento: 90 km
  • Pontes: 2,6 mil metros — rios Purus, Envira, Diabinho, Tarauacá e Juruá
  • Financiamento: recursos federais via PAC

A BR-364 é mais que asfalto. No Acre, ela corta uma discussão antiga sobre isolamento e risco, que só os governos do PT, nacional e estadual, decidiram realmente realizar. Quando chega, leva posto, escola, ambulância, comércio, estudante, caminhão, preço menor e também pressão sobre terra, madeira, boi, especulação e desmatamento. O governo Binho se moveu dentro dessa contradição amazônica: integrar sem destruir, aproximar sem entregar o território à lógica predatória, fazer o Estado entrar antes da grilagem, do garimpo político e da violência econômica. Essa tensão acompanha todas as experiências de desenvolvimento sustentável no Acre, inclusive as mais ousadas e as mais criticadas.

Binho inspeciona obras das pontes sobre rios Tarauacá e Juruá
Binho inspeciona obras das pontes sobre os rios Tarauacá e Juruá, em 2010. Crédito: Foto: Gleilson Miranda/Secom. Licença: CC BY 2.0.

Floresta

O SISA, criado em 2010, foi a tentativa mais ambiciosa de transformar em lei a ideia de que a floresta em pé produz valor. O Acre passou a ser apresentado como o primeiro estado da América Latina com uma legislação de pagamento por serviços ambientais, voltada a remunerar produtores, povos indígenas e comunidades tradicionais pela proteção da floresta e fixação de carbono. No mesmo campo, o governo assinou com o BNDES contrato de R$ 70 milhões, com recursos do Fundo Amazônia e contrapartida estadual, para o projeto Valorização do Ativo Ambiental Florestal, envolvendo gestão territorial, cadeias produtivas florestais e agroflorestais, incentivos a serviços ambientais e ações em áreas como Tarauacá, Feijó e Manoel Urbano.

SISA e Fundo Amazônia

  • SISA criado em: 2010 — primeiro estado da América Latina com lei de pagamento por serviços ambientais
  • Contrato BNDES/Fundo Amazônia: R$ 70 milhões + contrapartida estadual
  • Projeto: Valorização do Ativo Ambiental Florestal
  • Eixos: gestão territorial, cadeias produtivas florestais e agroflorestais, incentivos a serviços ambientais
  • Áreas de atuação: Tarauacá, Feijó, Manoel Urbano

Este sistema, inédito no Brasil, foi uma tentativa de traduzir em política pública algo que já estava na nossa cultura. A ideia de que a floresta em pé tem valor.

Binho lê essa experiência como antecipação histórica. “Este sistema, inédito no Brasil, foi uma tentativa de traduzir em política pública algo que já estava na nossa cultura. A ideia de que a floresta em pé tem valor.” Ao falar sobre a compreensão pública do modelo, ele admite o descompasso entre a inovação e o tempo político. “Em muitos momentos a gente estava propondo coisas muito avançadas para o nosso tempo. Aquelas iniciativas só agora estão acontecendo nos demais estados e a entrar no debate nacional.”

O exemplo do Acre na consolidação de práticas ambientais sustentáveis
O Acre consolidou práticas ambientais sustentáveis, aliando desenvolvimento florestal à preservação. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

Mas a reportagem sobre esse Acre que tentou se organizar não pode cair na armadilha da celebração sem sombra. As políticas de serviços ambientais, carbono e economia verde se tornaram campo de disputa, com críticas de setores acadêmicos, organizações indígenas e movimentos socioambientais sobre repartição de benefícios, consulta, desenho institucional e riscos de transformar a floresta em ativo distante da vida concreta de quem mora nela. Também há registros de tensão na política indígena, inclusive com a desativação da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas no início do governo Binho, embora o período também reúna planos e ações voltados aos povos indígenas. O Acre que buscava inovar também tropeçava nas complexidades de governar territórios vivos, onde nenhuma política ambiental se sustenta sem escuta verdadeira.

Faltou tempo para conversar mais. Na realidade faltou ouvir mais as comunidades. Nós aprendemos demais com quem convive com o problema de perto.

Essa autocrítica aparece quando Binho fala da principal frustração. “Faltou tempo para conversar mais. Na realidade faltou ouvir mais as comunidades. Nós aprendemos demais com quem convive com o problema de perto. A gente fez muita coisa em pouco tempo. E isso limitou o diálogo com a população.” A frase devolve a política pública ao terreiro, ao barranco, à associação, à reunião comunitária debaixo do calor, onde a moradora sabe o nome do igarapé que seca, o agente de saúde sabe qual criança não foi vacinada e o extrativista sabe que nenhuma planilha explica sozinha o custo de permanecer na floresta.

O ex-governador reconhece outra falta: comunicação. “Talvez eu tenha tido mais facilidade em organizar as coisas do que em comunicar. Isso eu reconheço.” A frase ajuda a entender por que parte de seu governo ficou guardada no subsolo da memória, como sistema que funcionava sem virar mito. A política, sobretudo na Amazônia, também precisa ser contada para ser apropriada. O posto que chega uma vez por mês, a identidade emitida sem humilhação, a escola rural que não fecha, o ramal que permite a passagem, o atendimento que dispensa bilhete, tudo isso precisa virar consciência pública. Sem narrativa, até a política bem construída pode parecer obra de ninguém.

No balanço econômico, Binho também evita o tom triunfal. “A gente estruturou bases importantes. Mas o desenvolvimento leva tempo. Nem tudo amadurece no ritmo que a gente gostaria.” Ele sabe que o Acre avançou partindo de uma base muito baixa, com limites logísticos severos, mercado pequeno, dependência de transferências federais, baixa industrialização e uma geografia que encarece quase tudo. “O Acre é um território difícil, com desafios logísticos enormes. Isso impõe limites reais e depende de continuidade, que não aconteceu.”

Entre 1998 e 2010, o Acre passou por uma fase de expansão econômica ligada a três movimentos combinados: ampliação do gasto público estruturante, obras de infraestrutura e urbanização, e maior presença de programas federais e estaduais.

R$ 1,69 bi PIB do Acre em 1998
R$ 6,73 bi PIB do Acre em 2008
R$ 8,34 bi PIB do Acre em 2010

A palavra continuidade atravessa toda a conversa como um rio no inverno: cheia, larga, impossível de ignorar. “Eu me vejo como parte de uma construção maior. O governo do Jorge reconstruiu o Estado, trouxe esperança e elevou o orgulho de ser acreano. O meu tentou organizar ainda mais a máquina pública, dar consistência, fazer os sistemas funcionarem.” O verbo tentar, aqui, não aparece como fuga. Aparece como medida humana de uma experiência que pretendia fazer do Estado uma presença cotidiana, do seringal à capital, do Juruá ao Baixo Acre, da OCA ao PSF Móvel, da escola à maternidade, da floresta ao balcão de atendimento.

Saúde e Habitação

Na saúde, os registros do período reúnem investimentos em obras na Fundhacre/Hospital das Clínicas, reinauguração da Maternidade Bárbara Heliodora, hospital materno-infantil em Cruzeiro do Sul, Huerb/Pronto-Socorro, Plano Vida e UPA do Segundo Distrito, com cerca de R$ 8 milhões.

Nova Maternidade Bárbara Heliodora
Nova Maternidade Bárbara Heliodora, reinaugurada durante o governo Binho. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

Na habitação, o Minha Morada foi apresentado em 2010 com meta de 10 mil unidades habitacionais para famílias de baixa renda, articulado a programas e agentes federais como Minha Casa, Minha Vida, Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica Federal e PAC. Os dois governos — Binho e Tião Viana — entregaram ou atenderam aproximadamente 16,3 mil famílias com moradia, sendo a maior parte, quase 14 mil, na gestão de Tião.

Habitação — Minha Morada e continuidade

  • Programa Minha Morada: meta de 10 mil unidades (2010)
  • Total de famílias atendidas (Binho + Tião): aproximadamente 16,3 mil
  • Parceiros: Minha Casa Minha Vida, Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica, PAC
  • Saúde: R$ 8 milhões em UPA do 2º Distrito; obras na Fundhacre, Huerb, Plano Vida
Binho inaugura urbanização da ZAP Chico Mendes e entrega casas do Minha Morada
Binho inaugura urbanização da ZAP Chico Mendes e entrega casas do Minha Morada. Crédito: Foto: Agência de Notícias do Acre/Fotos do Acre. Licença: CC BY 2.0.

O desenho era o mesmo: ampliar serviços, padronizar oferta, criar capacidade pública e reduzir desigualdades em um território onde a distância sempre foi uma forma de exclusão.

Legado

Olhando de hoje, Binho fala do Acre com uma intimidade que mistura afeto e ferida. “O Acre não é só um lugar pra mim. O Acre está dentro de mim. Está na história da minha família, está na minha formação, está nas pessoas que me ensinaram a ver o mundo de outra forma.” Depois, abandona qualquer nostalgia confortável: “O que a gente construiu ao longo de vários anos foi uma trajetória. Com erros, com acertos, mas com direção. Em algum momento essa trajetória perdeu continuidade, perdeu ritmo.”

A crítica ao presente vem sem grito, mas com peso. “Em algum momento, essa trajetória perdeu continuidade. Perdeu direção, perdeu consistência. E isso a gente sente no dia a dia, na dificuldade das pessoas, na sensação de que o Estado já não responde como poderia. Sinto que as pessoas estão mais tristes e sem esperança.” A tristeza, no vocabulário político de Binho, não é abstração. É a mãe que volta sem atendimento, o jovem que não enxerga futuro, o trabalhador rural que não consegue assistência técnica, a comunidade que deixou de receber presença regular, a floresta que perde valor diante do avanço fácil do boi e da terra nua.

Mas eu não vejo isso como um ponto final. Eu vejo como um alerta.

Ainda assim, ele se recusa a chamar esse momento de fim. “Mas eu não vejo isso como um ponto final. Eu vejo como um alerta.” O alerta é para recuperar a capacidade de pensar o Acre como projeto, com maturidade, diálogo e aprendizado. “O Acre já mostrou que é capaz de construir caminhos próprios, de inovar, de cuidar das pessoas e, ao mesmo tempo, pensar no futuro. O desafio agora é retomar essa trajetória, com mais maturidade, mais diálogo e aprendendo com tudo o que deu certo e com o que não deu.”

A política lhe cobrou tempo, família, filhos, vida privada. Ele não romantiza esse custo. “A política me deu um sentido muito forte de vida. Eu venho de uma trajetória em que a ideia de justiça social sempre foi central. Poder trabalhar nisso concretamente foi um privilégio. Claro que tirou tempo. Tempo com a família, os filhos e comigo mesmo. Mas faz parte da escolha.” A trajetória institucional seguiu depois no Ministério da Educação, na Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino, no debate sobre planos de educação, Sistema Nacional de Educação e, em 2026, no novo Plano Nacional de Educação, sempre com a mesma matriz: organizar sistemas para reduzir desigualdades.

Como alguém que tentou, de forma sincera, ajudar a organizar o Estado para que ele funcionasse para todos e cada um. E que nunca perdeu de vista o sentido maior, que é melhorar a vida das pessoas.

Chegando ao fim desse papo, Binho Marques não pede para ser lembrado como o governador das obras mais visíveis, nem como o líder mais carismático, nem como o personagem central de um ciclo político que teve muitos donos, muitas mãos e muitas contradições. Ele reivindica algo mais discreto e talvez mais difícil: a memória de quem tentou fazer a máquina pública funcionar para todos. Existe aqui o balanço e a cobrança. Porque, no Acre, organizar o Estado nunca foi apenas arrumar repartição. Foi tentar fazer com que a cidadania chegasse onde a floresta ainda respira, onde o rio decide o calendário, onde o ramal vira atoleiro, onde o povo tradicional sustenta a terra com o próprio corpo e onde a política só faz sentido quando melhora, sem favor e sem humilhação, a vida de quem sempre esteve longe do balcão.

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