A política acreana vive um momento peculiar: de um lado, um governador com trajetória sólida e vitórias sucessivas desde 2006. Do outro, uma vice que, mesmo com um pouco visibilidade institucional, nunca passou pelo crivo direto das urnas. O contraste entre Gladson Cameli e Mailza Gomes não é apenas de currículo — é de densidade política, de trajetória, de liderança.
Gladson é um caso típico de político carismático com capital eleitoral próprio. Começou como deputado federal, virou senador, depois governador. Foi reeleito. E agora mira um retorno ao Senado em 2026. Se tudo caminhar sem imprevistos — Gladson é réu em processo de corrupção — deixará o cargo em abril do próximo ano, abrindo caminho para que sua vice assuma o governo do Acre. Mailza, portanto, se tornaria governadora sem ter disputado o cargo — algo que já havia ocorrido em 2018, quando ela assumiu o Senado como suplente do próprio Gladson.
A crítica a esse cenário não é, de forma alguma, baseada em gênero. Ser mulher nunca foi, e jamais deve ser, motivo para questionar a legitimidade de uma liderança. O que está em pauta é outra coisa: a fragilidade de uma figura pública que, mesmo ocupando dois cargos relevantes, não conseguiu se firmar como liderança autônoma, com ideias próprias e densidade política.
Mailza iniciou sua vida profissional como tesoureira da igreja Assembleia de Deus do Quinari. Depois disso, sua única experiência na gestão pública ocorreu quando seu então marido foi prefeito desta pequena cidada, nas proximidades de Rio Branco. Na ocasião, ela ocupou a Secretaria Municipal de Administração. Mas essa passagem foi marcada por um processo judicial envolvendo o casal. O então prefeito — seu marido à época — foi condenado por irregularidades e tornado inelegível. Mailza, por sua vez, também foi alvo da mesma ação, foi condenada e recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF). Nas ultimas eleições que disputou só conseguiu o registro eleitoral por força de liminar.
Ela não construiu base política própria, não se destacou na gestão estadual e, até hoje, não foi testada nas urnas como candidata majoritária. Sua atuação como vice-governadora é protocolar. Não há registros de protagonismo na condução de políticas públicas, tampouco na articulação política do governo. Sem base própria, sem pulso de comando e sem carisma popular consolidado, sua pretensão de reeleição em 2026 esbarra em obstáculos consideráveis, que podem, até mesmo, tirá-la da disputa, caso sua condenação seja confirmada pelo STF.
Para além disso, se quiser disputar a confiança do eleitorado, terá de esclarecer, inclusive para o público feminino, como concilia a vida pública com a convivência pessoal com um homem que responde a processo por agressão a uma ex-companheira — sendo reincidente nesse tipo de ocorrência com outras vítimas, conforme consta em boletins policiais.
Ao mesmo tempo, há um ponto delicado a ser considerado: o capital político de Gladson não é automaticamente transferível. Ele é um político de estilo próprio, dono do seu carisma. Sua comunicação direta, seu modo informal de fazer política e sua capacidade de se conectar com as bases lhe garantiram vitórias sucessivas. Mas isso não significa que ele seja capaz de ungir sucessores com a mesma força — muito menos uma sucessora que não construiu, até aqui, uma trajetória política independente e tenha sido legitimada pelo voto direto.
É preciso reconhecer que há mérito político na sobrevivência em ambientes de poder. Mailza chegou onde está por articulações que fazem parte do jogo. No entanto, ocupar um cargo por substituição é algo distinto de conquistá-lo pelas urnas. A democracia se fortalece quando os eleitos têm legitimidade direta do voto popular, sobretudo em cargos executivos.
Caso venha mesmo a assumir o governo do Estado, terá a ingrata missão de, em menos de seis meses, convencer a população do Acre de que tem capacidade de liderar. E mais: de que sua eventual candidatura à reeleição se justificaria por méritos próprios — não apenas por inércia ou conveniência política.
E isso ganha ainda mais gravidade diante do novo cenário geopolítico e econômico em que o Acre está inserido. Um estado de fronteira com o Peru e com a Bolívia, que se projeta como elo fundamental entre o Brasil e os mercados do Pacífico.
Com a recuperação da BR-364, a construção do trecho que liga o estado até Pucallpa no Peru e os investimentos na ferrovia transoceânica que pretende conectar o Atlântico ao Pacífico, o Acre está prestes a deixar de ser periferia para se tornar plataforma logística, comercial e estratégica do país.
Rio Branco e o governo estadual não podem se dar ao luxo de errar nesse momento. É preciso ter à frente alguém com visão estratégica, capacidade de gestão e articulação política para conduzir projetos estruturantes e não permitir que o Acre perca o bonde da história.
Porque não se trata de apostar no futuro de uma pessoa. Trata-se de colocar em risco o futuro de todo o povo acreano — no momento mais decisivo da sua trajetória, da economia brasileira e dos destinos do mundo.