O Acre preso ao espetáculo da polarização

O impacto da polarização política na qualidade do debate público: o que é urgente e o que é inviável?

O Brasil inteiro fala de polarização, mas talvez seja no Acre que essa palavra revele suas maiores contradições. Chama-se o estado de “conservador”, e, de fato, as últimas eleições confirmam uma preferência por nomes alinhados ao campo da direita. Mas isso não basta para explicar tudo, quando a realidade econômica grita o contrário: dependência profunda da máquina pública, transferências federais que mantêm as contas em pé e uma estrutura produtiva frágil que obriga o estado a importar quase tudo o que consome.

Enquanto isso, o discurso liberal de “menos Estado” sobe aos palanques como se a economia local não estivesse amarrada, na prática, ao próprio Estado que se critica. A direita acreana fala em autonomia, mas evita a pergunta incômoda: autonomia com qual base produtiva, qual logística, qual integração regional? Sem respostas, o conservadorismo vira estética, valores na boca, planilha vazia na mão. 

O conservadorismo, no Acre como no restante do país, costuma se resumir a discurso cultural. Fala-se em “menos Estado” enquanto se governa um estado que não sobrevive sem ele. Essa contradição precisa ser exposta, porque, sem enfrentar as raízes da dependência econômica, o discurso conservador se reduz a verniz ideológico para a manutenção de privilégios.

Mas a esquerda também não escapa à crítica. Governou o estado por duas décadas e perdeu a chance de apresentar um projeto de desenvolvimento sólido. Só chegou ao poder ao aceitar a lógica da “governabilidade” e se compor com setores conservadores. Jorge Viana é o exemplo mais claro: vindo de uma família de tradição política, construiu uma trajetória de sucesso, mas seu salto ao governo em 1998 só foi possível com uma aliança ampla, que incluiu o tucano Édison Simão Cadaxo como vice. Não foi ruptura, foi composição. O resultado administrou, sim, e deixou legados em educação, urbanismo e política ambiental, mas a conciliação cobrou seu preço: diluiu a identidade transformadora que se anunciava.

Nesse cenário, a polarização se torna uma farsa que empobrece o debate público. De um lado, conservadores que falam em valores enquanto dependem da máquina pública para sustentar sua política. De outro, progressistas que perderam a oportunidade histórica de transformar o estado e hoje pagam o preço. O eleitor é colocado diante de polos que se acusam mutuamente, mas que compartilham a mesma incapacidade de oferecer saídas estruturais.

O urgente é encarar o óbvio: sem projeto econômico consistente, nenhuma identidade política se sustenta. A direita, que insiste em “menos Estado”, precisa assumir que governa um estado cuja sobrevivência depende dele. A esquerda, que no Acre deixou legados importantes em educação, urbanismo e política ambiental, mostrou que era possível inovar, mas acabou se acomodando na lógica da governabilidade e perdeu fôlego para propor transformações mais profundas. O inviável é acreditar que a simples alternância entre direita e esquerda, nesses moldes, possa qualificar o debate. Enquanto a polarização servir apenas como espetáculo, o Acre seguirá preso à dependência e à repetição das mesmas promessas.

No Acre, até mesmo os símbolos se esvaziam. A Florestania nasceu como projeto ousado de valorização da floresta e da identidade amazônica, e representou uma ruptura importante no imaginário político. Mas, ao longo do tempo, faltou transformar esse ideal em prática cotidiana com ampla participação popular, e acabou se tornando mais bandeira de governo do que experiência viva da sociedade acreana. O agronegócio, por sua vez, se vende como motor inevitável de desenvolvimento e até se apropria da linguagem verde como vitrine, mas não incorpora os princípios da Florestania como modelo. Se o agro pode caber dentro da retórica da Florestania, nem de longe a Florestania coube no agro. Essa contradição revela o impasse da nossa polarização.

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