O “fogo amigo”: apagando fogo com gasolina

Colaborando com o “fogo amigo”, este texto também joga gasolina na fogueira. A política acreana ferveu após a fala do ex-governador Binho Marques, que comparou oito anos de gestão da oposição a um único ano dos governos da Frente Popular. Rapidamente, a declaração foi rotulada de arrogância. Mas é preciso separar soberba de memória de gestão.

Relembrar conquistas não é menosprezar ninguém, mas trazer à tona fatos que marcaram uma época. Isso não é bravata: é contraste de experiências e reafirmação de que é possível governar com resultados concretos. A política, em sua essência, é disputa de narrativas: uns afirmam que hoje o Acre vive um novo tempo; outros lembram que sementes foram plantadas e deram frutos em décadas anteriores. O que não cabe é criminalizar o ato de recordar, de comparar, de argumentar. Isso não é arrogância: é parte legítima do debate democrático.

A memória serve para mostrar caminhos, erros e acertos. Um ex-governador falar do que construiu é tão legítimo quanto os atuais governantes exaltarem suas próprias obras. Se o eleitor vai concordar ou não, cabe às urnas decidir. Mas chamar de arrogância o simples ato de reivindicar legados é tentar silenciar a história e isso, sim, seria desonesto com o povo acreano.

Por outro lado, antes de incendiar a própria trincheira com o “fogo amigo”, seria melhor perguntar: quem é o pré-candidato que se apresenta? Porque, até hoje, Binho nunca disse que é pré-candidato a nada. Quem insiste em criticá-lo deveria primeiro assumir sua própria vontade: deseja ser candidato? Se sim, apresente-se.

E quanto ao argumento de que “Binho, quando governador, não fez política”? Ora, se for para comparar sem eira nem beira, há quem “fez política”, mas Binho, bem ou mal, foi quem elegeu o sucessor. Isso pesa.

O curioso é que basta o “Binho de casa” postar uma opinião para já surgir um contra-ataque e não apenas dos adversários políticos, mas também de dentro, revelando um problema ainda maior: a falta de união na esquerda acreana. Em vez de debater projeto e futuro, preferem desperdiçar energia disparando fogo contra si próprios.

Não por acaso, o tão falado “Pacto de Geração”, defendido pela Democracia Radical, revelou-se um equívoco. Prometeu renovar, mas na prática apenas fragmentou. Os jovens antes apontados como promissores, em sua maioria, já não estão mais no PT. E os que ficaram, quando tiveram a oportunidade, conduziram o partido a derrotas e já não são sequer promessas. Esse tipo de arranjo político, longe de fortalecer, serviu apenas para enfraquecer ainda mais o partido.

Criticar sempre será fácil. Difícil é liderar, governar, construir e ainda transferir capital político. Talvez os incendiários de plantão devessem refletir sobre isso, ou não.

Binho, é verdade, não se colocou como pré-candidato e dificilmente se colocará, ou até mesmo aceitará ser. Diante disso, talvez seja hora de a esquerda acreana pensar seriamente em unir alternativas. Entre tantas possibilidades, uma delas poderia ser uma composição em que a experiência de Binho, ou tantos outros, Kamai, Nazaré, Angelim, Tião Viana, se somasse à juventude do Dr. Thor, já apresentado pelo PCdoB como pré-candidato. Thor é uma jovem liderança promissora, que merece ser valorizada. Uma aliança assim poderia simbolizar não apenas união, mas também a ponte entre o legado construído e o futuro a ser sonhado.

Está na hora de a esquerda acreana parar de se autossabotar. E aos especialistas políticos de plantão, que comecem a ciscar pra dentro.

Parafraseando Lula: “seja você o político que deseja”.

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