O legado da Escola Acreana de Música e a ousadia de Binho Marques

Era manhã de sexta-feira, 26 de novembro de 2010, quando o Acre, por alguns instantes, pareceu caber inteiro numa partitura. No espaço onde por anos funcionou o Centro Cultural do Tucumã, nasceu a Escola Acreana de Música. O antigo prédio, reformado e ampliado a um custo de mais de R$ 2,5 milhões, ganhava vida ao som do canto medieval Ut Queant Laxis, entoado pelo maestro Douglas Marques. A solenidade teve brilho ainda maior com a presença de João Donato, o filho da terra que, recém-laureado com o Grammy Latino, voltou para compartilhar com o público acreano as notas de suas composições mais célebres.

O governador Binho Marques, diante da comunidade, artistas e estudantes, resumiu a inauguração em uma frase que ecoa até hoje:

“Só a educação liberta. Aqui é um lugar de construção da liberdade.”

Não era apenas a inauguração de um prédio. Era a afirmação política de que a cultura poderia, e deveria, ser projeto de emancipação.

Em 2010, no último ano de governo de Binho, o Acre vivia a maturidade de um ciclo iniciado em 1999 com Jorge Viana. Foram oito anos de priorização da infraestrutura e da formação de servidores, criando bases sólidas para que o Estado ousasse em novos campos. Binho, sucessor de Viana, não via cultura e educação como acessórios, mas como princípio e convicção. A Escola Acreana de Música simbolizava isso: um espaço robusto, equipado com 12 salas de prática instrumental, auditório, estúdio de gravação, biblioteca temática, musicoteca, telecentro e instrumentoteca. O sonho era ambicioso: receber 600 alunos por ano, formar músicos e preparar o Estado para a obrigatoriedade do ensino de música na rede pública. Como destacou o maestro Marcos Fonseca, era “a resposta a uma demanda histórica por formação musical no Acre”.

Mas, passados 14 anos, a pergunta permanece: que partitura seguimos depois daquela manhã histórica? A música entrou de fato como disciplina consolidada na grade da escola pública acreana? Quantas outras escolas semelhantes foram inauguradas depois de 2010? O projeto de transformar a EAM em escola técnica, formando músicos ainda no ensino médio, saiu do papel?

A resposta, em boa medida, desafina. A Escola Acreana de Música continua sendo símbolo, mas não se multiplicou em rede. O ensino de música, apesar de previsto em lei federal desde 2008, segue em muitos casos como atividade extracurricular, e não como disciplina efetiva.

O gesto de Binho contrasta com a realidade nacional e local, onde cultura e educação artística ainda são vistas como “luxo” ou “gasto”. O que deveria ser tratado como estratégia de futuro, formar cidadãos criativos, sensíveis e livres, segue relegado a segundo plano em orçamentos e políticas.

E aqui cabe a provocação: por que insistimos em negar o óbvio? Num Estado que sofre com a violência juvenil, a ausência de perspectivas profissionais e a dependência econômica, a música e a arte poderiam ser ferramentas de transformação profunda.

A Escola Acreana de Música continua sendo um marco, talvez o maior símbolo de que educação e cultura caminham juntas na libertação. Mas um símbolo sozinho não basta. A ousadia de 2010 precisa ser lembrada não apenas como memória, mas como provocação política. Avançamos ou retrocedemos? Continuamos tocando a partitura iniciada por Binho ou deixamos a melodia se perder no ruído das urgências imediatas?

Se em 2010 acreditamos que o Acre podia formar seus novos João Donatos, em 2025 precisamos encarar a pergunta sem subterfúgios: queremos um Estado afinado com a cultura ou estamos dispostos a viver desafinados com o futuro?

Em 2025, a Escola de Música do Acre (EMAC) segue em funcionamento, com editais recentes para novas vagas em cursos de canto, musicalização infantil e diversos instrumentos. A Secretaria de Estado de Educação anunciou abertura de 100 vagas remanescentes e outro edital para 500 inscrições (Agência de Notícias do Acre). Mas a pergunta permanece: isso representa a consolidação de uma política cultural de Estado ou apenas a manutenção pontual de um símbolo?

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