Do seminário em Sena Madureira ao Senado Federal

A história de dedicação, lealdade e compromisso de um dos grandes nomes da esquerda acreana.

Dizem que algumas pessoas não nascem apenas em um lugar. Aníbal Diniz é dessas figuras. Ele, nasceu em Campo Mourão, no Paraná, em 13 de dezembro de 1962. Mas foi no Acre, ao chegar adolescente em dezembro de 1977, que ele realmente se descobriu. Era quase Natal, quase seus quinze anos, quase tudo ainda por acontecer, e foi ali que a vida começou a lhe dar o sotaque, os amigos e a causa que o transformariam em acreano.

O primeiro pouso foi em Sena Madureira, dentro de um seminário, onde o silêncio dos corredores e a disciplina dos estudos moldaram sua atenção ao detalhe e sua sensibilidade para ouvir. Mas logo Rio Branco o chamou: em 1981, já na capital, ele trocou a batina que nunca vestiu pelo calor da militância. Ingressou no Partido dos Trabalhadores e mergulhou nas lutas que começavam a redesenhar o destino da floresta e de sua gente. Eram tempos de redemocratização, de sindicatos efervescentes, de juventudes que acreditavam que o Acre poderia escrever uma história diferente, e ele se jogou de corpo inteiro nesse projeto coletivo.

Antes de ser senador, foi voz no rádio e na televisão, texto no jornal, nem sempre nos bastidores, dirigindo e orientando, foi palavra de ordem em reuniões e assembleias. Jornalista incansável, ajudou a dar forma à comunicação popular, transformando microfones e páginas em ferramentas de disputa de ideias. Foi assessor de comunicação da Prefeitura de Rio Branco nos anos 1990, na gestão de Jorge Viana, e mais tarde comandou a Secretaria de Comunicação do Estado, tanto com Jorge quanto no governo de Binho Marques. Era, já ali, um dos estrategistas da narrativa petista no Acre: o homem que sabia traduzir sonhos políticos em mensagens que chegavam ao povo.

Em 2010, quando Tião Viana foi eleito governador, abriu-se a vaga no Senado e coube a Aníbal Diniz assumir a cadeira. Não chegou ao Congresso por eleição direta, mas chegou com a legitimidade que só a militância fiel e constante é capaz de construir.

De 21 de dezembro de 2010 a fevereiro de 2015, foi o senador do Acre. E ali, mesmo diante das formalidades e protocolos, manteve o estilo que herdara do jornalismo: falava claro, com didatismo, sem medo de polemizar quando o interesse do Acre estava em jogo. Participou de comissões decisivas, como a de Ciência e Tecnologia, onde relatou temas centrais do Plano Nacional de Banda Larga, defendendo o acesso universal à internet como direito e instrumento de cidadania.

Teve coragem de propor mudanças estruturais, como o projeto que reservava vagas no Senado para mulheres, em tempos em que a representatividade feminina ainda engatinhava. E nunca deixou de olhar para o Acre: seja ao defender debates sobre o fuso horário do estado, seja ao garantir espaço para que as demandas amazônicas não se perdessem na distância entre Rio Branco e Brasília.

Em seu discurso de despedida, em dezembro de 2014, resumiu a passagem pela Casa com simplicidade: o Senado fora para ele “a escola da melhor política brasileira”.

O mandato se encerrou, mas não a vida pública. Em 2015, Aníbal Diniz foi indicado e aprovado para compor o Conselho Diretor da Anatel, onde permaneceu até 2019. Se no Senado defendeu a inclusão digital como horizonte, na agência reguladora passou a atuar diretamente na arquitetura do setor de telecomunicações.

Ali se dedicou a temas técnicos e estratégicos, como o Plano Geral de Metas de Competição (PGMC) e o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações (PERT). Mais uma vez, a marca foi a mesma: lealdade aos princípios e compromisso com o interesse público. Em 2017, chegou a exercer a vice-presidência da agência, consolidando sua experiência como um dos quadros mais preparados da esquerda acreana para o diálogo entre política, comunicação e tecnologia.

E é justamente essa mistura de lealdade, dedicação e compromisso que mantém seu nome vivo no imaginário da política acreana. Não seria surpresa que em 2026, quando as urnas voltarem a chamar, o nome de Aníbal Diniz esteja entre os cogitados: seja como suplente de senador, seja como candidato a deputado federal, ou ainda como articulador de projetos que mantenham a esquerda do Acre enraizada e forte. Se o futuro lhe reservar uma campanha, é fácil imaginá-lo à frente, não apenas como candidato, mas como o comunicador e articulador nato que sempre foi.

Seja qual for o caminho, a trajetória já está marcada. Aníbal é desses quadros raros que pertencem à política como quem pertence a uma casa: cuida, zela, constrói e nunca abandona. O menino que chegou em 1977 com uma mala cheia de sonhos hoje é um dos grandes nomes da esquerda acreana, e ainda há capítulos por escrever.

A trajetória de Aníbal deixa também uma lição amarga ao próprio PT acreano: se ele foi, ao longo da vida, exemplo de como a comunicação pode aproximar política e povo, o partido parece ter desaprendido esse caminho. Em disputas majoritárias recentes, ignorou comunicadores formados na militância local, gente capaz de traduzir o Acre para os acreanos, para apostar em estratégias que produziram campanhas frias, sem identidade. O resultado foi previsível: programas de rádio e TV que não falavam a língua do povo. Um contrassenso, sobretudo quando se recorda que, nos tempos de Aníbal, comunicar era resistir.

5 Comments

  • Nelson Gomyde , setembro 27, 2025

    Conheço Aníbal e posso dizer que, sim, sua capacidade de ouvir, analisar, compreender e congregar opostos é enorme. Com infinita paciência, sempre busca o que traz a maior vantagem para todos e, principalmente, para seu queridíssimo Acre. Espero que Aníbal volte à cena política direta, pois está fazendo muita falta!

  • Edelourdes Ferreira Vieira , setembro 27, 2025

    Deus abençoe esses guerreiro orgulho d nossos familiares Aníbal Diniz estamos juntos por um BRASIL MELHOR COM JUSTIÇA E RETIDÃO

  • Maria Diniz , setembro 27, 2025

    Belíssima narrativa!
    Desse ser humano, que as agruras do tempo o fez forte e o Senhor o capacitou com sabedoria e visão. Anibal Diniz, sinto-me honrada em ser sua irmã, pois você mesmo longe, cuida dos seus, sempre com sábias palavras.

  • Carlos Alberto de Araújo , setembro 27, 2025

    Anibal, um sábio que alcança a alma humana.

  • Sidio Júnior , setembro 29, 2025

    O Aníbal é um jurista que merece todo nosso respeito. O texto faz jus ao elevado nível desse amigo notável na discussão sobre telefonia e banda larga.
    Parabéns ao autor pelo texto e ao Aníbal pela sua história e pelo que é.

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