Jorge Viana pode até reavaliar a candidatura; desistir é outro assunto

Quem vive no Acre já aprendeu a medir o tempo não apenas pelo calendário, mas pelos ciclos da natureza. Quando o rio sobe, a cidade parece parar. Quando a água baixa, vem a poeira. Logo depois, a fumaça. Entre uma cheia e outra, famílias fazem contas, arrumam malas, e a pergunta silenciosa se repete nas mesas de café, nos ônibus e nas filas de banco: vale a pena ficar?

Esse sentimento de incerteza não está apenas no cotidiano. Ele também atravessa a política. A recente declaração de Jorge Viana, ao admitir que vai reavaliar sua candidatura ao Senado nos primeiros meses do próximo ano, caiu como um dado novo num cenário já bastante sensível. Não se trata de um nome qualquer. Jorge é, hoje, o principal quadro do campo progressista no Acre, presença constante nas pesquisas e reconhecido inclusive por adversários como um político preparado e experiente.

Por isso, sua possível desistência não é um detalhe. Ela mexe com todo o tabuleiro. No Acre, política não se faz por peças isoladas. Uma candidatura forte ao Senado sustenta alianças, fortalece chapas proporcionais e ajuda a dar sentido a um projeto maior. Sem isso, o risco é de empobrecimento do debate e enfraquecimento coletivo.

É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: se Jorge não for candidato, quem ocupa esse espaço? E aqui é preciso falar com franqueza, sem romantismo, mas também sem negar a história.

Há nomes conhecidos da população. Tião Viana, ex-governador e ex-senador, com larga experiência institucional e profundo conhecimento do estado. Binho Marques, lembrado por muitos como o governador da educação, da valorização da escola pública e de uma gestão com forte identidade social e ambiental.

Há também exemplos mais recentes que a memória do eleitor não apagou. Nazaré Araújo, ex-vice governadora é um deles. Na última eleição, foi candidata ao Senado lançada praticamente nos “45 minutos do segundo tempo”. Com pouco tempo de campanha, estrutura limitada e enfrentando nomes já consolidados, conseguiu uma votação expressiva, surpreendendo inclusive analistas políticos. Muita gente lembra: se tivesse tido mais tempo, mais apoio e mais exposição, poderia ter ido ainda mais longe. Agora, com duas vagas em disputa, seu desempenho passado ganha outro peso e merece ser considerado com seriedade.

E há, ainda, o debate geracional. O PT sempre falou em pacto entre gerações, e isso precisa sair do discurso. Daniel Zen, com sua trajetória jurídica e política, e Léo de Brito, ex-deputado federal bem votado e com presença ativa nos debates nacionais, representam uma nova safra que dialoga com outro público, outra linguagem e outro tempo.

Nada disso, porém, se constrói no improviso. Abrir mão de uma candidatura com potencial real só faz sentido se houver uma construção coletiva clara, com alternativa viável e estratégia definida. Do contrário, o gesto corre o risco de ampliar o sentimento de desalento que já empurra tantos acreanos para fora do estado, em busca de oportunidades que não encontram aqui.

Entre enchentes, secas e queimadas, o Acre precisa de mais do que sobrevivência. Precisa de horizonte. A política não pode ser mais uma névoa de fumaça encobrindo o futuro. Precisa ser caminho, diálogo e decisão, antes que mais gente decida ir embora.

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