O caso envolvendo Madson de Castro Cameli, companheiro da governadora Mailza Assis, voltou a circular nas conversas políticas de Rio Branco e nos bastidores do governo não apenas pelo teor das acusações, mas pelo espaço que ele passou a ocupar na estrutura mais próxima da chefe do Executivo. O Ministério Público do Acre denunciou Madson em agosto de 2024 por lesão corporal grave e violência psicológica contra a ex-esposa, em um contexto de violência doméstica. O MPAC também requereu medidas protetivas e o acompanhamento da vítima pelo Centro de Atendimento à Vítima.
Antes de qualquer análise, há uma fronteira que precisa ser preservada: processo não é condenação. A defesa de Madson nega as acusações, afirma que provará sua inocência nos autos e invoca o devido processo legal e a presunção de inocência. A parte penal pertence à Justiça. É nesse campo que provas, laudos, depoimentos e contraditório devem ser examinados.
Mas tratar o caso como se fosse apenas uma ocorrência policial reduz o tamanho real da questão. Quando uma pessoa denunciada em caso de violência doméstica ocupa uma função de confiança no núcleo do governo, o assunto atravessa a porta do gabinete e entra no terreno das escolhas públicas. O Portal do Estado do Acre registra Madson Castro Cameli como chefe do Gabinete Pessoal da governadora, e a Agência de Notícias do governo informou sua confirmação no cargo em abril de 2026.
É nesse ponto que o caso entra na pauta política. Não para substituir o Judiciário, nem para decretar culpa, mas para perguntar qual régua o governo usa ao escolher quem entra na sala mais próxima da governadora. A Lei estadual nº 3.497/2019 veda a nomeação de pessoas condenadas por crime de violência contra a mulher, com restrição válida após condenação transitada em julgado. Pela lei, denúncia não equivale a condenação. Na política, porém, a pergunta permanece: em um governo que afirma compromisso com o enfrentamento à violência contra a mulher, qual é o peso de manter no centro da gestão alguém sob acusação formal nessa matéria?
A resposta exige cuidado. Não se pode responsabilizar Mailza por atos atribuídos a terceiro apenas pelo vínculo afetivo. Essa leitura seria injusta e poderia facilmente escorregar para a misoginia, sobretudo quando usada para desqualificar uma mulher no poder por sua vida pessoal. O debate legítimo não está na condição de esposa ou companheira. Está nos atos de governo: nomeação, critérios de confiança, comunicação pública e distância entre o que a gestão diz defender e aquilo que pratica quando escolhe seus auxiliares mais próximos.
Também é necessário separar cobrança pública de ataque de gênero. Questionar uma nomeação não é, por si só, machismo. Cobrar explicações de uma governadora sobre escolhas administrativas não é misoginia. O debate se transforma em violência política de gênero quando o episódio passa a ser usado para diminuir sua capacidade, atacar sua intimidade, culpá-la pela acusação contra o companheiro ou sugerir que uma mulher só governa sob influência masculina.
Ao mesmo tempo, transformar toda crítica em misoginia empobrece a conversa pública e fecha uma porta que precisa permanecer aberta. Mulheres em cargos de poder devem ser protegidas de ataques sexistas, mas não estão fora do alcance da fiscalização democrática. Governantes precisam explicar suas escolhas, especialmente quando elas encostam em temas como violência doméstica, moralidade administrativa e políticas públicas para mulheres.
O limite, portanto, é claro: a culpa penal de Madson deve ser discutida nos autos; a decisão política de nomeá-lo e mantê-lo em cargo de confiança pode e deve ser debatida pela sociedade. Uma coisa é condenar sem julgamento. Outra, bem diferente, é perguntar se a régua ética do governo combina com o discurso público que ele apresenta.
Se esse tema chegar aos palanques e aos programas eleitorais, deve chegar com responsabilidade. Não como exploração da dor de uma mulher, nem como arma de destruição pessoal contra outra. Mas como debate sobre a distância entre o que o governo diz defender e as escolhas que faz quando fecha a porta do gabinete. Governos não comunicam apenas com discursos. Comunicam também com escolhas.